Explorando formas em desenho, ilustração e instalação
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Sentido Falho
Tipo de projeto
Ilustração
Data
2026
De onde vem o desenho? Porque se desenha e que relação há entre o desenho e a superfície em que se desenha? Plínio, o Velho, situa a sua origem num gesto: a filha do oleiro Butades marca na parede o contorno da sombra do amante que parte, projetada pela luz de uma lucerna. A imagem nasce da perda e da luz — é dessa luz, do indo-europeu leuk, que vem a palavra ilustração. Talvez seja necessário regressar a essa obscuridade: ilustrar seria menos clarificar do que mostrar uma sombra. Em Sentido Falho, parte-se daí para propor uma História do Desenho enquanto História do Gesto, uma genealogia alternativa da ilustração.
Suspender o juízo: εποχη. O conceito, de Pirro de Élis, anuncia a possibilidade de suspender toda a afirmação ou negação quanto à natureza das coisas: nada em si mesmo é bom ou mau, belo ou feio. Mas à experiência do mundo sem pré-juízos pertence também a vontade. É esse o processo que esta proposta evidencia: romper com o tempo cronológico para aceder ao tempo da escolha, o tempo que marca, que compromete e que cinde. O sentido falho desorganiza a perceção e a corporeidade: os cinco sentidos deslocam-se para zonas de instabilidade onde o corpo se inscreve, se expõe e se constrói no próprio ato. Todos os objetos têm aqui um lado sexualizado, são uma intrusão no íntimo.
Olhemos para a arte da Pré-História. Iegor Reznikoff mostrou que, nas grutas paleolíticas, as pinturas se concentram nos pontos de máxima ressonância: desenha-se onde a gruta responde à voz. Será o desenho um ato psicoacústico, e a caverna não o suporte, mas uma extensão da própria imagem? Joana Pires equipara-a a uma folha de papel vegetal.
Não há molduras nesta exposição, mas corpos cobertos de desenhos, vistos em sobreposição e não na relação sem espessura do plano. Transbordando os eixos horizontal e vertical, estas ilustrações transferem-se para o interior de um gesto que mimetiza o que acontece nos corpos, para lá dos corpos, como se o próprio gesto adquirisse espessura. O gesto trazido a estes desenhos nunca é mostrado: é o que permanece no interior, o que controlamos. O que significa mover uma destas folhas, fazendo aparecer ou desaparecer o que está em cima e o que está em baixo?
Construção instável, a espontaneidade está fora deste gesto. Decorre de uma preparação meticulosa, de uma leitura daquilo que o ameaça, de uma adaptação permanente ao mundo. Há aqui uma união entre essência e ornamento: o que está em causa é a dinâmica do tapar e do destapar, do afeto e da destruição, em que aquilo que cobre é também o que descobre. Implica ouvir o que respira no desenho. É esta escuta que permite ir ao encontro do arquétipo do movimento, aquilo a que Aby Warburg chama Pathosformel, a fórmula de páthos que sobrevive e migra de imagem em imagem.
Sentido Falho procura esses vestígios sobreviventes, congelados na prática do quotidiano, desde o momento em que o ato de desenhar se alienou de uma experiência mais integral. Ilustrar, aqui, é devolver ao gesto a sua espessura.

































